quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Mocho I



   A Lebre, o Gavião e o Mocho



       Há uma floresta em mim. E no tronco de uma arvore há um buraco, e este buraco é uma toca. A minha toca. Eu, o mocho, observo durante o dia o que se passa acolá, e do acolá eu observo.
            Há uma lebre. Uma lebre saltitante e alegre e branca como a água em neve. Eu, o mocho a observo. Eu a sinto, mas não me faço pressentir. Amo-a, pois há algo que me completaria: a felicidade, a invejo.
            Seus olhos têm brilho. Refletem a sua alma em luz. Sim... A lebre... (suspiro)
            O vi vindo do monte mais alto. Do monte mais alto vindo o vi. Aquele a quem lamento a existência... O gavião.
            Veio por sobre as nuvens e na altura do arco-íres ele voou.
            Seu esplendor e sua beleza a seduz. Seduz a lebre com seu ar de ordem e moral, e desta toca não o deixo de notar. Ele, o gavião.
            Cheio de heroísmo e convencimento, de razão e de conselhos. Ele parece correto. Parece correto o gavião.
            Ele pousa ao seu lado e a lebre lhe sorri. Ele olha penetrante mas as formas ele vê, pois nunca disse ver a alma em seus olhos. Tem boa visão para tudo o que há de fora e tudo o que há de fora ele vê, mas não vê o que há no escuro, o imanente, o escondido. Só alguém na floresta parece ver o interior e os segredos e procurá-los até na dor, aquele que vê no escuro e do escuro: eu, o mocho.
            O gavião a ilude, pois se ilude também o gavião. Pede para que ela olhe para cima e veja as nuvens. Imagina cenas das nuvens o gavião e pede para a lebre o acompanhar em seus sonhos. Olha para as nuvens e vê a beleza de tudo o que é celeste. Mal sabe que o seu celeste é ilusão e que logo se desfazem suas cenas.
            -Te defenderei até o fim- diz ela, mas quê é uma lebre para defender um rapinante? Ela poderia ser uma presa e nem se toca disso. Ambos somos caçadores: eu, o mocho e ele, o gavião.
            Em algo insiste, insiste em algo o gavião, pois aquele olhar sonhador e para cima esconde algo. Algo terrível para mim. Ele insiste em levá-la para as nuvens. Assim insiste o gavião.
            É admissível alguém que não voa não conhecer as nuvens do céu. É fumaça, vapor, ilusões para quem vê imagens. Mas eu sei o que ele quer! Quer prendê-la em sua toca ou ao menos levá-la para longe da floresta!
            A noite está chegando e sem seu sol ele pouco vê, pois só aparece no claro e para todos. Despede-se e vai... O gavião.
            Ah... A noite...
            É tão bela e a lebre se esconde e não a vê. Se pudesse de dia não faria como o gavião que quer subir com ela para ver nuvens e as ilusões do outro lado, mas subiria para de cima ver a terra e tudo o que há. Tudo o que é belo de dia o é também à noite, mas o que muda são os olhos de quem vê.
            Mas eu não sou igual ao gavião!
            Eu, o mocho, tenho raiva, tenho amor, sinceridade e não escondo o que há em mim, quando posso mostrar. Mas não querem ver o mocho, pois o mocho desilude, olha a noite como o dia. Por hoje estava na toca, mas a noite eu devo me mostrar e uma vez de dia também de sair para alcançar a desilusão.
            Ele, o gavião, são os valores, o ego, a honra, a cultura... a regra.
            Ela, a lebre, a felicidade, a inocência, a mulher e a criança, a ultima peça, a ultima vontade.
            E eu, o mocho.